Como estudar para concursos fazendo faculdade: um guia prático

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Estudar para concursos enquanto se cursa a faculdade pode ser um desafio. Porém, milhares de pessoas já venceram essa batalha, e não há razão pela qual você não possa fazer o mesmo. Por isso, se você é um concurseiro-bacharelando, este artigo te oferecerá algumas dicas práticas para conciliar os seus dois projetos de vida, sem abrir mão de fazer ambos com qualidade.

Eu não sei se você sabe, mas os cargos públicos desse Brasil não são ocupados somente por pessoas que tinham o dia todo livre para estudar. Muito pelo contrário – em qualquer órgão público que você decida visitar, sempre será possível encontrar pessoas proveniente dos mais diversos cenários.

Alguns servidores já tinham filhos para criar enquanto estudavam para o concurso. Outros tinham um trabalho. Alguns faziam faculdade. E outros, acredite se quiser, se encaixavam em todas essas três categorias.

Mas como isso é possível? Afinal, existem vários candidatos que têm a sorte de poderem se dedicar aos estudos com exclusividade. Como explicar o fato de que esses candidatos não pegam todas as vagas, mesmo tendo o dia inteiramente livre para estudar?

Essa é a pergunta-chave que responderemos ao longo do artigo. Para isso, a primeira informação que devemos guardar é a seguinte:

O número de horas estudadas por dia não é o fator mais importante para o resultado de um candidato

Em qualquer fórum de concurseiros, uma das perguntas que mais geram comoção é a seguinte: “quantas ‘horas líquidas’ eu preciso estudar para ser aprovado no concurso XYZ”?

Porém, assim como tantos outros questionamentos no meio concurseiro, eu sou obrigado a responder da seguinte forma: essa pergunta não tem uma resposta definida.

O andamento da sua preparação depende de diversos elementos – e é certo que os mais importantes deles não estão diretamente relacionados com o número de horas que o candidato estuda a cada dia. Como exemplos, podemos citar os seguintes:

  • Consistência no estudo ao longo dos meses
  • Uso de métodos corretos de aprendizagem
  • Direcionamento dos estudos para as informações certas

A maioria dos candidatos sequer está ciente da verdadeira importância desses fatores. Por isso, eles não buscam se aprimorar nesses aspectos ao longo de sua rotina de preparação. E é dessa forma que tantas pessoas, mesmo precisando dividir a preparação com uma série de outras atividades, acabam conseguindo “roubar a vaga” de outras que têm o dia todo livre para estudar.

Sendo assim, a sua missão de passar no concurso enquanto faz faculdade gira em torno da seguinte pergunta: o que eu vou fazer com cada uma das horas que tenho para estudar para o concurso? (Leia mais sobre isso no artigo: Como Começar a Estudar Para Concursos do Jeito Certo em 5 Passos Essenciais.)

Portanto, agora nós iremos começar a entender como funciona a mentalidade desses candidatos incríveis, que conseguem conquistar uma posição no serviço público mesmo quando precisam se desdobrar entre tarefas diferentes.

Eis a primeira descoberta de todo bom candidato que estuda para o concurso enquanto cursa a faculdade:

1) Entenda que, a partir de agora, a sua rotina tem duas atividades de naturezas diferentes

É fácil pensar que o estudo para a faculdade e a preparação para um concurso são atividades semelhantes, já que ambos são tarefas intelectuais – e essa impressão pode se tornar ainda mais verdadeira quando as matérias de faculdade também fazem parte do conteúdo programático do concurso.

Porém, não se engane: embora haja algumas semelhanças, esses dois tipos de “estudo” pertencem a categorias completamente diferentes.

Para começarmos a entender melhor essa ideia, observe a pergunta abaixo, que foi postada em um grupo de concurseiros do Facebook:

estudar para concursos fazendo faculdade

O que você acha? Será que o autor desse post realmente se tornou “menos inteligente” quando começou a estudar para concursos?

É claro que não. Na verdade, os maus resultados desse aluno possuem uma explicação bem menos drástica. É que ele simplesmente ainda não entendeu quais são os ajustes que precisa fazer nos estudos para ter sucesso no concurso público.

Isso mesmo: o estudo para “passar de ano” tem uma natureza muito diferente da preparação para um concurso público.

Ao longo da vida estudantil, é natural que nós acabemos desenvolvendo certas “estratégias” de estudo. Normalmente, elas são criadas pelos próprios alunos de forma intuitiva, já que, paradoxalmente, a escola não nos ensina a aprender.

Isso faz com que nós acabemos criando abordagens que servem muito bem para o objetivo de sermos aprovados no ano letivo.

Porém, quando terminamos essa etapa da vida e começamos a estudar para concursos, as regras do jogo mudam completamente – e aquilo que dava certo na sua época de escola pode não funcionar nada bem nessa nova etapa.

Você consegue imaginar os motivos disso?

Escola e faculdade são cheias de provas com matéria pequena

“Mas como assim, Leonardo? Faculdade tem matéria pequena? Você nunca fez uma prova de Controle de Constitucionalidade?”

Sim, meu jovem. Eu também fiz Direito, então eu passei por todo esse drama, e sei como é. Mesmo assim, eu mantenho o que eu disse: na escola e na faculdade, as matérias de prova são pequenas – especialmente se comparadas com o conteúdo programático de um concurso público.

LEIA TAMBÉM: COMO SE PREPARAR PARA UM CONCURSO ANTES DA PUBLICAÇÃO DO EDITAL

No mundo dos concursos, você se prepara para uma única prova ao longo de vários meses ou anos. A abrangência dessa prova é consideravelmente grande, o que faz com que você precise ter muito conhecimento armazenado na sua memória de longo prazo. E mais: você precisa ser capaz de acessá-lo com facilidade no dia da prova. O problema pode ser resumido da seguinte forma: não há como estudar tudo nas vésperas.

Por sua vez, as provas de faculdade costumam abordar o tema aprendido ao longo de poucas semanas ou meses – e é por isso que os alunos conseguem ter sucesso apenas estudando intensamente nos dias antes da prova (e frequentemente sacrificando as próprias horas de sono nesse processo).

Essa técnica – estudar a mesma matéria por muitas horas seguidas ao longo de poucos dias – possui um nome. Ela é chamada, tanto pelos estudiosos quanto pelos próprios estudantes, de cramming.

O cramming é um método bastante popular, e um dos mais comumente utilizados por alunos do mundo todo. E também se trata de uma técnica já bastante investigada pela Ciência Cognitiva. Sendo assim, de acordo com tudo o que sabemos, qual é a eficácia do cramming? Qual é o efeito que tem na performance estudantil de um indivíduo?

Depende.

Se o nosso objetivo é o de simplesmente tirarmos uma nota alta em uma prova de colégio/faculdade, o fato é que o cramming pode funcionar muito bem.

Porém, nem toda forma de estudo nessa vida tem o objetivo de preparar o aluno para fazer uma prova e esquecer toda a matéria no dia seguinte. O que acontece quando um aluno tenta utilizar essa mesma técnica com o objetivo de construir conhecimentos que serão necessários no médio e longo prazo?

Estudar para concursos enquanto se faz faculdade pode ser um desafio
It’s time to cram for the exams! Não podemos julgar os estudantes; afinal, todos já fizemos o que eles fazem antes das provas.

Nesse caso, o cramming é uma técnica desastrosamente ruim.

Estudar uma única matéria por muitas horas seguidas, ao longo de poucos dias, possibilita uma boa performance em uma prova – desde que toda a matéria possa ser “espremida” dentro das sessões de estudos desse aluno.

Porém, quando falamos de retenção de conhecimento, essa técnica falha: estudar dessa forma faz com que o conteúdo seja quase totalmente esquecido pouquíssimo tempo depois de realizada a prova. Uma semana é suficiente para que a maior parte das informações seja permanentemente esquecida.

Portanto, isso não significa que cramming seja algo inerentemente errado. Quase todos os estudantes desse planeta já precisaram recorrer a essa “técnica” para conseguirem passar em algumas matérias de faculdade.

O que acontece é: cramming é uma ferramenta emergencial para se conseguir ser aprovado em uma prova – desde que seja possível fazer com que todo o conteúdo caiba dentro de algumas sessões de estudos.

Por outro lado, como um instrumento para a construção de conhecimentos, essa estratégia não deve ser usada.

E assim, chegamos a um ponto-chave do presente artigo:

Existe mais de uma forma de se estudar. Uma dada abordagem pode ser eficaz em um determinado contexto, mas se mostrar inócua quando o aluno tem um objetivo diferente, que exija competências distintas. Sendo assim, é fundamental que o aluno seja sensível a essas diferenças e saiba escolher a abordagem mais adequada para a consecução de cada uma de suas metas.

O Mapa da Aprovação

O problema é que muitos alunos não sabem identificar as diferenças entre o estudo para a faculdade e a preparação para concursos. E nós não podemos culpá-los por isso: afinal, a escola não nos ensinou a aprender. Por isso, agora vamos comparar duas abordagens distintas – e veja que cada uma delas pode fazer sentido em um determinado contexto.

Observe a tabela abaixo (eu duvido que algum professor já tenha te mostrado isso):

ERRADOCERTO
Estudo massificado (mesma disciplina por muitas horas seguidas)Sessões de curta duração, com intervalos e alternância entre disciplinas
Poucos contatos com cada informaçãoMúltiplos contatos com cada informação ao longo dos meses
Uso da memória de curto prazo durante a provaAcesso a memórias de longo prazo durante a prova
Dormir quando sobra tempoDormir faz parte do cronograma – o sono não pode ser sacrificado

Essa é uma das diferenças entre “levar a faculdade” e preparar-se para um concurso público. Portanto, se você pretende fazer as duas coisas ao mesmo tempo, terá que saber transitar entre ambos os projetos, compreendendo qual é a estratégia que mais atende ao seu objetivo dentro de cada um deles.

2) Organize-se

Quando um candidato não tem preocupações além do próprio estudo para concursos, a sua rotina diária pode ser bem flexível. Esses estudantes podem iniciar os estudos em horários variáveis do dia, e mudar a própria agenda quando surgem novos compromissos, sem que isso sacrifique a sua carga horária total.

LEIA TAMBÉM: COMO ESTUDAR REDAÇÃO PARA CONCURSOS PÚBLICOS: ESCREVA MELHOR EM 3 PASSOS

Contudo, a cada compromisso extra que você tem na vida, a necessidade de organização se torna maior.

Portanto, esse é o momento de ser realista e responder à seguinte pergunta: “quantas horas por semana a faculdade te consome?”

Separe o tempo que for necessário, e, em seguida, faça seu planejamento diário. Lembre-se de incluir todas as informações, tais como:

  • tempo de deslocamento (se você não faz EAD);
  • horário de aula;
  • trabalhos;
  • estudo para provas;

Faça a sua melhor estimativa, e lembre-se: todo planejamento é apenas uma referência.

Se podemos ter uma certeza nessa vida, é que imprevistos irão acontecer ao longo da sua preparação. Além disso, você também passará por variações internas que são perfeitamente naturais, tais como: seu nível de disposição, capacidade de concentração, desempenho intelectual e seus estados emocionais.

Por isso, não se sinta culpado pelas oscilações que acontecerão na sua preparação; afinal, você não é um robô. Os candidatos mais bem sucedidos não são aqueles que tentam agir de forma “perfeita”, mas sim aqueles que conseguem retomar sua rotina depois de cada solavanco.

3) Pare de se comparar

Em todas as áreas da vida, as redes sociais nos induzem a comparar-nos com os outros.

A “ostentação” invadiu até mesmo a ala mais “intelectual” do Instagram; só que, nesse meio, ao invés de exibirem carros e mansões, os estudantes ostentam escrivaninhas impecáveis, cronogramas perfeitos e coleções intermináveis de canetas marca-texto. Para piorar, eles também se gabam publicamente das “horas líquidas” que estudam a cada semana.

Como eu já disse, a preocupação exagerada com as “horas líquidas” não é algo produtivo na vida de ninguém. Seguindo a mesma linha de raciocínio, não é válido que você compare o seu dia a dia com o de pessoas que têm rotinas completamente diferentes da sua.

Se você precisa dividir o seu tempo entre a faculdade e os estudos para concursos, é fato que existirão candidatos que conseguem estudar mais horas que você.

E daí? Essa informação não tem a menor importância na sua vida. Como eu já mencionei em outro artigo, em todo concurso que você tentar na sua vida, alguém será aprovado depois de estudar bem menos que você – e isso indica que uma boa estratégia de estudo sempre será capaz de prevalecer sobre uma carga horária extensa.

Se o concurso público fosse uma competição de quem estuda mais horas por dia, todos os cargos públicos do país seriam ocupados por jovens que foram bancados pelos pais durante a preparação. Mas basta visitar qualquer órgão público para que você veja que a realidade está muito longe de ser assim.

Sendo assim, da próxima vez que você der de cara com algum comentário a respeito de “horas líquidas”, antes de sentir-se mal, faça-se as seguintes perguntas:

  • Será que o post dessa pessoa retrata a realidade?
  • Será que essa pessoa manteve um excelente nível de concentração ao longo de todas aquelas horas?
  • Será que essa pessoa é eficiente nos estudos, ou será que desperdiça grande parte do seu tempo com abordagens ruins?
  • Será que, ao longo dos meses, essa pessoa vem conseguindo consolidar a maior parte das informações que estuda?
  • Será que essa pessoa vem aprimorando os próprios estudos semana após semana, da mesma forma que eu faço?

Como você pode ver, existem muitas variáveis nessa equação. Logo, não há razão para que você sinta que esta “ficando para trás” quando percebe que a sua carga horária é menor do que a de outra pessoa.

estudar para concursos fazendo faculdade não se resume a horas líquidas
“Vou ser reprovada, não estudei 8 horas líquidas hoje!” – pare já com isso.

A respeito disso, eu posso falar em primeira mão: eu tenho certeza de que a minha carga horária não estava entre as 21 maiores dentre todos os 12.000 candidatos que prestaram o mesmo concurso que eu. Mesmo assim, essa foi a minha colocação na lista final (bem dentro da zona de nomeação).

Por isso, não dê bola para as “horas líquidas alheias” e procure fazer muitas horas eficientes ao longo da sua semana. Assim você pode fazer a concorrência comer poeira… sem precisar largar a sua faculdade.

Conclusão

É perfeitamente possível preparar-se para concursos enquanto se estuda numa faculdade, e muitas pessoas já realizaram esse feito. O sucesso nessa missão depende apenas da compreensão de que cada uma dessas atividades tem sua própria natureza, e é necessário desenvolver a capacidade de se adaptar e transitar entre ambas as formas de estudo. Este artigo buscou esclarecer qual é a estratégia dos aprovados que faziam faculdade enquanto se preparavam para um concurso, e também para te ajudar a fazer os ajustes necessários para que você consiga conquistar o mesmo objetivo.

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